Felipe Lwe

"Quem tivé de sapato num sobra, num pode sobrá"

Fui eu que matei? (maio/2016)

1 comentário


Screen Shot 2016-05-29 at 4.00.00 PM

[contém spoilers]

Sobre a peça: Canto para Rinocerontes e Homens (maio/2016), baseado no texto “O Rinoceronte”, de Eugène Ionesco.

Às 19h20 chegamos no Galpão Folias para comprar ingressos para a peça. Já estava na lista de espera. 1h depois conseguimos um lugar no mezanino. Ali de cima era possível ver toda a estrutura da peça: Arquibancadas rodeando uma arena circular e entre elas pequenos camarins.

Às 20h30 começa o ‘canto de amor’. O musical começa com uma conversa com o público, surge a pergunta: “O que é o teatro?”, ‘Emoção’, ‘É complexo, imita a vida’, ‘Magia’ ouve-se pela platéia. O grupo insiste em dizer que este é um último ato. O último homem entra em cena, Berenger, ele foi o único que restou de uma epidemia que transformou os seres humanos em rinocerontes. Remontando a grécia antiga e a origem da palavra TEATRO a arena circular a nossa frente se transforma numa metáfora de nós mesmo naquela condição. Pequenos tocos de madeiras são dispostos dentro da arena com bonequinhos que imitam seres humanos, estamos olhando nós mesmos para o que acontece, como se pudéssemos por um momento nos observar diante de tudo o que acontece, observar nossa imobilidade diante do teatro que a vida nos propõe todos os dias.

A música permeia as cenas como que costurando o enredo e propondo algumas reflexões. O bar, Jean aguarda seu amigo Berenger que chega atrasado ao encontro. Jean, homem ereto, pontual, firme como concreto em suas decisões. Berenger, homem um tanto curvado, nem sempre pontual, balança, sempre disponível a uma bebida. Mal se encontram e Jean ataca com brutalidade “Oh Berenger, nós marcamos às 5 e já são quase 6, eu não tenho tempo a perder eu tenho mais o que fazer”, assim começam uma discussão. Numa metáfora visual em que cada um é um toco de madeira o mesmo corpo se repete: Jean, grosso, ereto, gira sobre seu mesmo eixo, semelhante a um parafuso; Berenger, menor, na diagonal, permeia a mesa com movimentos circulares, alguns movimentos repetidos apenas nos momentos em que a palavra trabalho é dita. A partir daí Jean defende que “o homem superior é aquele que cumpre seu dever de empregado” enquanto Berenger “Dever de empregado não consigo me habituar”, nessa discussão os tocos representativos de Jean e Berenger simulam o cerco de fechando sobre Berenger que sempre escapa. Um rinoceronte no centro da cidade destruindo tudo por onde passa.

Berenger está sempre envolvido com algo que a sociedade de hoje desacredita: falta de compromisso com o trabalho, sempre que pode durante a cena dá um golinho numa garrafa de bebida, não tem tanta afeição pelo cumprimento de prazos, idéias que parecem mirabolantes, etc.. E por esse motivo durante toda a cena Jean ataca seu amigo impiedosamente, defendendo sua ‘moral’ e pretensioso sobre sua própria força, sempre pedindo para que ele ataque também.  Um jogo de lógica se estabelece: se você não lutar, não atacar não vai ter. Nisso o coro explica com um exemplo muito lógico como um silogismo pode transformar de maneira lógica e racional Sócrates, o pensador, em um gato Siamês: “Que bonito que é a lógica, mas não podemos abusar…”

Todo o primeiro ato é uma ode ao uso cauteloso da lógica e da justiça, que também se baseia na lógica ao julgar. E faz refletir se estamos discutindo sobre a questão importante ou sobre detalhes que não importam. Outro rinoceronte atravessa a cidade. Jean e Berenger começam a discutir a linhagem do rinoceronte, numa discussão claramente inócua e agressiva que foge a um debate sadio. No fim do primeiro ato as palavras que marcam: “O mundo só é humano quando se torna objeto de diálogo”.

E o segundo ato começa com “O espaço público é o espaço que preserva o esquecimento” palavras da Hannah Arendt. O grupo indica que sem o espaço público não existimos. Agora dentro de um escritório, voltamos ao enredo de Berenger. A discussão sobre a existência de rinocerontes na cidade entra no escritório alvoroçando os funcionários que discutem entre si. Enquanto discutem e trabalham no escritório os funcionários constroem a cidade envolta deles, e estamos diante de uma lupa: os mini-edifícios como tocos de madeira ao redor de uma arena menor central e organizados de maneira metódica enquanto enxergamos de maneira aumentada esses funcionários e a situação entre eles ao mesmo tempo que eles mesmo servem para construir essa sociedade e esses edifícios. Curioso que até mesmo o chefe que faz Yoga, Triatlhon, todo místico, também ajuda e até comanda as pessoas na direção de se tornar Rinoceronte. De repente todos presenciam a transformação de um dos funcionários em Rinoceronte numa solução cênica muito interessante. Todos ficam presos no edifício porque o Rinoceronte destruiu as escadas da empresa.

“De quem é a culpa? De quem é a culpa? A culpa de quem é?” o coro canta. “Precisamos voltar ao trabalho!!” , “É preciso lembrar que não estamos de férias!” o chefe canta, todos vão para as suas casas. Berenger vai visitar seu amigo Jean.

Nesse momento a atriz Viviane Almeida pede licença à família Silva e começa a cena mais forte e emocionante da peça. Num depoimento em que salta a invisibilidade que sentimos e agimos nas ruas todos os dias a atriz conta a história da morte de um garoto por policias diante da acusação dela de que ele havia assaltado ela. Numa referência explícita ao tratamento de seres humanos como animais pela polícia, a associação do camburão à uma jaula, e a falta de julgamento e de defesa diante das situações o depoimento se alvoroça entre as palavras: Jaula, tenho certeza, não tinha tanta certeza assim, se debatia, animal, se debatia, jaula, certeza, cela, rinocerontes, os policiais, rinocerontes, a metáfora fica muito clara: os rinocerontes agem como animais diante do garoto que talvez tenha roubado, o prendem e o matam. A pergunta que fica e que não é nada metafórica é: Fui eu que matei? Quem que foi? Foi nós que matamos… As histórias de casos assim continuam até que o ato termina e assistimos José Mujica em um depoimento sobre como de maneira atordoada trabalhamos para comprar sendo que a única coisa que não se pode comprar é tempo de vida…

O terceiro ato começa com um ritual baseado no livro: “Rinoceronte bem-sucedido” de . Como uma grande palestra de motivação o ator Guilherme Carrasco incita a platéia a ser rinocerontes. Mostra como o capital, o dinheiro, a necessidade dele nessa conformação que vivemos hoje extrai de nós toda a nossa violência  e faz com que não nos importemos com o que será necessário fazer para ter. Enquanto isso no centro da arena, em meios aos prédios da cidade um ser humano caído.

Berenger chega a casa de Jean. Jean, sempre violento, depois de três turnos no trabalho está se sentindo mal. Durante a conversa a respiração de Jean muda, ele está se transformando em rinoceronte. Ele mesmo passa argila branca no corpo: “o solo de um trabalhador que não tem tempo de ser humano.”. Vemos a agonia desse corpo durante alguns minutos ao que no final transformado em Rinoceronte veste sua roupa de Rinoceronte: uma roupa genérica de um trabalhador. A alegoria de que sem tempo para ser, trabalhamos e nos tornamos então animal, operário rinoceronte do sistema, da sociedade. A trilha acompanha a transformação com sons que lembram os sons de uma construção civil, que atualmente atua como verticalizadora dos bairros destruindo-os assim como na cena em que Jean destrói a mini-cidade envolta de si. “Você é Rinoceronte meu amigo!” grita Berenger.

No quarto ato, todos os atores se tranformam em Rinocerontes. O depoimento inicial é bastante atribulado e volta a indicar o sistema capitalista como o grande rinoceronte que dá a luz seus rinocerontinhos. Os solos tocam os temas: a família como conceito excluidor de diferenças; a pressão machista em relação ao corpo da mulher; a educação e sua estética militar que serve muito bem para formar rinocerontes; e finalmente na agressão que os rinocerontes (animais naturais, o rinoceronte encontrado na natureza) sofrem pelo homem na questão da violência do parto e da retirada dos cornos. Nesse último, em meio a miniaturas de rinocerontes e humanos, Viviane Almeida com seu corpo todo em argila branca dança o sofrimento dos rinocerontes quando sofrem essas agressões. Comovente essa dança do sofrer que nos faz questionar tudo outra vez.

Berenger nos leva pra fora do teatro, vemos o humano olhando para a cidade-rinoceronte. O que fazer?

“La utopia sirve para caminar”.

Eduardo Galeano dizendo as palavras de Fernando Birri sobre para que serve a Utopia.

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Autor: Lwe

Sou uma tentativa de cineasta que se encontra querendo dançar e interpretar outras vidas...

Um pensamento sobre “Fui eu que matei? (maio/2016)

  1. Essa montagem foi um grande acontecimento de 2016. Um acontecimento teatral, contemporâneo ao golpe. Um retrato tristemente atualizado de Ionesco: hoje tornar-se rinoceronte é um imperativo generalizado do caos social.
    «Eu só não quero virar rinoceronte»

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